Drops de uma vida na Alemanha – parte 7 (Meu pão, minhas regras)

Chegando para buscar as meninas na escola, Pilar vira e fala:

– Look, mama! Fulana is going to have a sister! (“Olha, mamãe! A Fulana vai ter uma irmã!“)

Eu, vendo que a mãe da menina NÃO estava grávida, olhei para a Pi with lasers e comecei a falar entredentes, muito rápido, em looping, em português mesmo:

– Não, não, não! Fica quieta! Fica quieta! Fica quieta, por favoooooooorrrr!!!

Mas não deu tempo. Enquanto a Pilar me olhava confusa, a Cecília jogou a última pá de cal na situação cagada, fazendo aquele gesto típico com as mãos para mostrar a barriga e falando:

– But she seems VERY pregnant! Look!! (“Mas ela parece MUITO grávida, olha!“)

😵😵😵😵😵😵😵😵

Tudo que consegui dizer foi: “I’m so, so, soooooooooo sorry” (“Um trilhão de desculpas“) e voltar palestrando para casa.

Falei de feminismo, de liberdade, de padrões sociais inatingíveis, dos vários tipos de beleza, discurso completo. Estava me achando um sucesso no empodeiramento das meninas.

Pois bem.

Mais tarde, no restaurante, o garçom trouxe o couvert e a Cecília choramingou:

– Maamaaaaaaa, o pão da Dodoca está mais gordinho do que o meu!!!

Antes que pudesse processar a reclamação, a Pilar já me atravessou, gritando:

– CE-CÍ-LI-AAAAAAAA!!! Não pode falar assim! Vc não tem nada a ver com o PESO DO PÃOZINHO! Cada um cuida do seu nariz e ele pode ser como quiser, viu?!” 🤦🏻‍♀️👌🏻

Acho que na próxima vez vou tentar em alemão.

Certeza que deve ser mais fácil 🙄

#usemcamisinha

#trêsmarias

#cabemtrêsvidasinteiras

#moradadosramosafilial

#dropsdeumavidanaalemanha

Quem nunca foi Juma Marruá por uma noite que atire a primeira pedra

Essa é mais uma história real de uma pessoa xis, aleatória, escolhida na multidão.  Vamos chamá-la novamente de Paola.

Paola morou 3 anos no interior, fez vários amigos queridos e voltava sempre, frequentava as festas da cidade, passava suas férias lá, etc.

Pois bem. 

Um belo dia, estava na festa do hotel, comendo, bebendo, música alta, todo mundo conversando, dando risadas, sem prestar a menor atenção no que o apresentador estava falando.

Eis que Paola ouviu seu nome.

A galera começou a bater palmas, ela com aquela cara de virgem no puteiro, sem entender nada, “quiquitáacontessenu” coisa e tal, até que a puxaram para o palco.

O locutor colocou uma faixa, entregou uma medalha (guardada até hoje, uma relíquia) e só então Paola entendeu que tinha sido eleita…. (como dizer isso sem morrer de vergonha própria? Quero dizer, alheia, da Paola, coitada, claro)…. MISS ESTÂNCIA da festa.

Até aí tudo bem, Paola estava constrangida, mas pronta para usar os quatro “S” do seu pai – surgir, saudar, sorrir e sumir. Porque seu pai ensina coisas desse tipo, realmente úteis na vida, em vez de apenas “escova os dentes antes de dormir”. Fecha parenteses.

Só que o cara me entregou o microfone (aqui desencanamos da Paola, porque está difícil contar a história em terceira pessoa. Mas vcs podem continuar o exercício, por favor 🙄) e explicou que eu tinha que gritar “SEGUUUUUUUUUUUUUUUUUURAAAAAAAAAA PEÃOOOOOOOOO” bem alto, longo e demorado.

Pensei em simular um desmaio, mas já estava ali, com a medalha, galera olhando e tals.

Meu sobrenome é FairPlay, lá fui eu tentar falar.

Sem o menor sucesso, CLA-RO.

Desafinei horrores.

Ficou parecendo quando a pessoa entra direto no chuveiro gelado e tenta respirar, sabem? Tipo “PEÃUÃUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAOOOOOOOOOOOOO”.

Péssimo.

Devolvi o microfone roxa, procurando o botão de ejetar, todo mundo gargalhando e pensei “Bom, pelo menos acabou”.

Só que a vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo?

Uma das funções adicionais da Miss Estância, inventada ali na hora, era abrir os trabalhos da noite. Com um BERRANTE (sempre tem uma portinha no fundo do poço, minha gente. Impressionante. Dica mais valiosa do que os quatro “S” do meu pai, anotem aí).

A galera toda em silêncio esperando.  Peguei o tal berrante e pensei “Beleza, vi uns capítulos de Pantanal, não deve ter segredo”.

Olhei para a plateia, puxei o ar, fechei os olhos, assoprei com toda a força dos meus combalidos pulmões e o óbvio aconteceu: em vez do “AOWWWWWWWWWWWWWWWWWWWW” esperado, longo, bonito, ele fez FUÉÉÉN.

Só.

Três segundos de silêncio, pessoal em choque com o #epicfail e eu escuto, do palco, a gargalhada da minha irmã 👌🏻👌🏻👌🏻👌🏻👌🏻👌🏻

(Sisterhood? Um beijo, me liga!).

Foi assim que se encerrou minha (não tão promissora) carreira meteórica como Miss Estância.

Praticamente um milagre eu conseguir me levantar da cama e seguir vivendo todos os dias.

Valeu, universo.

FIM

#forçapaola

#jumamarruáfeelings

#premiadafeelings

#FUÉNFUÉNFUÉN (literalmente)

Juma

Seguuuuuuuuuuuuuuuuuuraaaaaaaaaaaaa peãooooooooooooo!“(MARRUÁ, Juma).

Drops de uma vida na Alemanha – parte 6 (O dia em que precisei de um botão de ejetar)

Pilar na casa do vizinho novo, inspecionando quarto por quarto:

– Who sleeps here? And here? And here? (“Quem dorme aqui? E aqui? E aqui?“)

Ele respondendo com toda a paciência do mundo, até que chegou à suíte principal e ele:

– It’s fulana’s room (“É o quarto da minha namorada“)

Aí ela percebeu que tinham acabado os quartos da casa e perguntou:

– But where will YOU sleep? (“Mas onde VOCÊ vai dormir???“)

E ele:

– Here with her. If it’s okay for you 🙄 (“Aqui com ela, se tudo bem por vc 🙄”)

Corta a cena, dia seguinte, eu na sala do tal vizinho, sem ter acompanhado nada desse diálogo, totalmente vendida na história, eis que entra a Pi correndo:

– Mamy, mamy! He is going to sleep with her, that’s okay, right? (“Mamãe, mamãe! Eles vão dormir juntos, tudo bem, né?“)

🙀😳😂

Fiquei 5 segundos muda. Tudo que consegui pensar foi: “ela falou em português? Deus, permita que tenha sido em português!”.

Até que todas as pessoas da sala começaram a gargalhar e eu entendi que não, uma benção👌🏻🙈😂

Usem camisinha, pessoal.

Juro, bem mais importante do que filtro solar ou blusas com botões, repensei minhas prioridades.

Filhos são selvagens. Quando menos se espera eles entram em uma sala qualquer, perguntando na frente de todo mundo se os vizinhos podem transar 😬👌🏻🤦🏻‍♀️

FIM.

Coiote

Drops de uma vida na Alemanha – parte 5 (Vingança é um prato que se come frio)

Hoje a Russa me chamou, apontou para o armário da Dora e disse: “George!”.

Nossos diálogos costumam ser assim mesmo, com muitas mímicas e apenas palavras-chave, mas confesso que dessa vez fiquei com aquela cara de interrogação de quem não tem a menor ideia do que estava acontecendo.

Ela, então, pensou um pouco e repetiu, pausadamente, apontando para a gaveta: “Geeeeooooorrrrr-geeeeee”.

Olhei para o armário, ainda perdida, me lembrei de que ela tinha pedido as roupinhas que não servissem mais para as meninas e fiz a conexão que pareceu bem lógica na hora, porém, agora pensando, só fez sentido mesmo na minha cabeça: “Oooooohhhhh! Peppa Pig?”

Ela me olhou em choque e eu, em vez de calar a boca, insisti, meio cantandinho, apelando para a linguagem universal da trilha sonora dos desenhos animados: “PÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉPPAAAAAAAAAAAAA PIG! RONC! RONC! RONC!!”.

Aí veio a resposta que ninguém esperava: “No. Son” (com aquela mão no peito, indicando “meu”, sabem?).

Nesse momento, entendi que o diálogo não tinha nada a ver com a porquinha famosa, ela queria que eu fizesse uma etiqueta igual à da Dodoca, com o nome do filho dela: George.

Só que aí já era tarde, não dava mais para descantar a música.

Então, a lição que aprendemos hoje, amiguinhos, é que karma is a bitch.

Sim, ela perguntou se eu estava grávida, out of the blue, fazendo a maldita mímica da pança.  Mas eu, indiretamente, a chamei de Mamãe Pig, em plena sexta-feira chuvosa.

What goes around, comes around.

FIM.

Placar geral: Russia 1 x 1 Brasil x Alemanha perdida na tabela (na dúvida, chutaria uns 7, vai 🙄).

Peppa

Drops de uma vida na Alemanha – parte 4 (Tengo la camisa – y todo el resto – negra)

Aí a raiz do meu cabelo começou a crescer.  Tentei me enganar, disfarçar as evidências, negar as aparências, até que não teve mais jeito, era reeeeealmenteeeeeee hora de tingir.

O problema é que frequento o mesmo salão há séculos, o que significa que não tenho a menor ideia de qual seja a minha cor.  Chego lá, sento e a mágica acontece, saio prontinha da silva sauro, sem nenhum acidente de percurso.

Mas, se tem uma coisa que aprendi nesses meses morando fora é que as pessoas fazem TUDO sozinhas.  Tipo TUDO.  E bem ou mal, estou meio que sobrevivendo, né?

Foi aí que caí na primeira armadilha: aquela autoconfiança traiçoeira, conquistada após muitos anos de infância moldada pela Xuxa, com aquele mimimi de querer, poder, conseguir, sabem?

Não sou nenhuma gênia, longe disso.  Porém, ganhei Prêmio Rotary no colégio uma vez, entrei direto na faculdade, passei de primeira na OAB. Acho que tenho capacidade para passar espuminha no cabelo, certo?

Errado.  Muito errado.  Erradíssimo.

Comecei até que bem. Cheguei ao supermercado, escolhi a cor, vi que a caixinha custava menos de quatro euros, saí de lá toda pirilampa, me achando A MALANDRA, show me something, brazilian baby, etc e tal.

Aí começou a saga.

Primeiro, as instruções eram em alemão. 👌🏻🙄

Mas como sou brasileira e não desisto nunca, decidi seguir os desenhinhos, não poderia ser tão difícil.

Fui espalhando a gosma pelo cabelo tipo #vidaloka, chock-chock, pinga no chão, pinga na pia, pinga na roupa.

Percebi que iria precisar de um pente, porque aquilo estava virando um ninho de pomba. Aí tira a luva com a boca, mancha o queixo, abre o armário, pega o pente, põe a luva de volta, mancha o braço, as pulseiras tudo, chock-chock-chock.

Após alguma dificuldade, tinta malemá passada, entre mortos e feridos salvaram-se todos. Sucesso Capim Cubano.

Aí lembrei que precisava pegar a touca, dentro do bendito armário de novo.  Tira luva, põe luva. Limpa os cabelos que caíram na pia com a luva suja, mancha tudo, joga a luva fora (grande erro).

Esperei meia hora sentada no chão do banheiro, sem encostar na parede, para não manchar móvel nenhum (coluna em choque, tipo “era assim que eu deveria viver??”, bibibi bobobó).

Aí a cabeça coçou, luva já no lixo , manchei a unha, o dedo, o nariz (?), o pescoço, a testa (mais), a alma.  Quis chorar, porém perseverei, pensando que é como chupar caroço de manga, a meleca é dada, o importante é querer, poder e conseguir, só que em uma versão já menos alegre e saltitante.

Trinta minutos passados, fui pegar a toalha com todo cuidado para entrar no chuveiro, usando só as pontas dos dedos e, batata, ela caiu dentro da privada.  Pior, molhou tudo no caminho até a lavadora, OUCEJE, agora terei que lavar o banheiro também.

Aí precisei tirar a blusa e, bom, ela teve que ir para o lixo de forma prematura, com sua grande amiga, a luva (nota mental: usem blusas com botões. Muito mais importantes do que filtro solar ou camisinhas nessas horas #ficaadica).

Entrei no banho, liguei o chuveiro e aí, amores, aí o sertão virou mar. Negro. Tipo piche no golpe do vidro do carro.

Tinha tinta preta por tudo, tudo, tudo, Papai Noel: piso, paredes, costas, rosto, peito, braços, cortina (banheiros aqui não têm box. Por quê??? Por quê?? Por quêêêêêê???) e até nos dedos dos pés.

Mil horas no banho até limpar o encardido (mal ae, Cantareira germânica 😬), sequei o cabelo rapidinho, de qualquer jeito, mega ansiosa para ver o fruto do meu árduo trabalho.

Resultado: a notícia boa é que não fiquei ruiva, nem loira, como temia.  A ruim é que fiquei morena.  Mas morena MESMO.  Mortícia Addams level.  Vou demorar umas quatro lavagens até poder olhar de novo no espelho sem cantar, estalando os dedos.

Quer dizer, a conclusão é única e bem óbvia, né, minha gente: sim, o preço da tinta é apenas 4 euros.  O que ninguém conta é que os outros muitos dinheiros que vc paga no salão são pela sua dignidade.

FIM.

Mortícia 2

 

Diálogos com o maridón – parte 17

Estava lá, tranquila e serena, trabalhando até mais tarde no silêncio do escritório vazio, quando chega uma mensagem do maridón:

– Conselho Tutelar vem me prender.

Pausa dramática.

É uma piada?

É sério?

Um pássaro?

Um avião?

Semi-tensa pergunto o motivo e eis que a resposta chega em capítulos:











Porque algumas pessoas conseguem simplesmente mandar avisos via WhatsApp: “deu ruim, mas está tudo bem, já contornei”, “deixa comigo”, “traz pão quando vier”.

Outras preferem criar sua própria Fotonovela animada em plena terça-feira gelada.

E eu casei.

Feliz dia dos pais para vcs também 🙄

#maridónfacts

#contigorevival

#terceirofilhosósefode

#masadodocaestáótima

#nãochamemoconselhotutelarpufavô

Entre filmes, declarações de amor e um sequestro imaginário (Parabéns, mãe!)

Caí na besteira de assistir ao filme da Björk, chamado Dançando no Escuro (se vc tem um coração, prefira arrancar todos os dentes do siso antes de fazer isso #ficaadica).

Chorei umas três horas seguidas.  Saí do cinema chorando. Entrei no carro chorando. Chorei o caminho inteiro.

E aí, tomada por um instinto suicida pela emoção, achei que seria uma ÓTEMA ideia telefonar para a minha mãe, tarde da noite, e me declarar (ai, como sou fofa ♥ #todaschora).

Acontece que metade da minha mãe é amor e a outra metade é desconfiança.  Ou seja, deu ruim:

– Alô?

– Oi, mã, snif, sou eu, snif. Só liguei, snif, para dizer que te amo, snif.

– Paula, que tarde! Está tudo bem?

– Tudo bem, snif.  Só queria que vc soubesse, snif, tá? Um beijo, snif.

– Beijo, durma bem, filhoca.

Um minuto e meio depois, toca meu telefone:

– Paula, é a mamãe! SE VC ESTIVER SENDO SEQUESTRADA, DIGA “AZUL”!

Essa é minha mãe, senhoras e senhores.

Entre sequestros imaginários e o CSI do bolor muita coisa começa a fazer sentido sobre mim, não é mesmo?

Hoje é o dia dela.

Parabéns, Dra. Sílvia!

Muita saúde, felicidade, dindin, sucesso, paciência e força para correr atrás da netaiada.

Maior te amo!

(não, eu não estou sendo sequestrada.)

(não, não mesmo. Está tudo bem, juro!)

(AZUL! AZUL! A-Z-U-L! AZUUUUUUUUUUUUUUUUUULLLLLLLLL!!)

Mamãe