Drops de uma vida na Alemanha – parte 8 (A saga do voo de volta OU Entre elevadores, malas, documentos esquecidos, extintores de incêndio e a Astrid OU Senta que lá vem história)

“Mas, Paula, vc vai viajar sozinha com as três? Tem certeza?“.

Claaaaaaaaro! Não vai ser complicado. Todo mundo faz tudo com os filhos a tiracolo na Alemanha, se eles conseguem eu também consigo. São só algumas horinhas, não pode ser tão traumático.

SPOILER ALERT: Big mistake.

Big, big, biiiiiiiiiggggggg mistake.

Começou que eu estava levando todas as malas do mundo, além das três quianças, ponto deveras importante, até então desconsiderado no planejamento.

Três carrinhos lotados, malas de mão empurradas, filhas executando malabarismos, gritando e fazendo manha por motivos altamente relevantes, tipo um canudo.

Paciência indo para a Lua desde a entrada no carro. Pai e irmã heróis tentando acalmar as meninas e colocar panos quentes. Primeiro piti já no estacionamento do aeroporto, acabando com a tentativa de “Comunicação não Violenta” apregoada por uma amiga – também mãe de três, só para evidenciar ainda mais o meu fracasso.

Finalmente consegui entrar no elevador, já suando, após travar uma breve batalha para passar o Carrinho de Pisa pelo friso e pela porta ao mesmo tempo  (coordenação não é item de série, reconheço, mas, em minha defesa, estava realmente pesado). Elevador fechou a porta e… começou a apitar.

Repeti a operação umas quatro vezes, sem nenhum sucesso. Na última, travou tudo, fiquei presa por alguns segundos e disparou o alarme. Típico sinal divino de que seria um loooooongoooo dia. Deveria ter escutado, eu sei.  Mas sou brasileira, não desisto nunca, desencaixei tudo e parti para a próxima fila.

Balcão de check in, mocinha sorridente e simpática:

– Documentos, passaportes, autorizações, localizador e passagens de volta OU CARTÕES DE RESIDÊNCIA, por favor?

E foi aí que a porca torceu o rabo.

Eu, a virginiana mór das galáxias, a fazedora oficial de listas e malas, a intolerante com desatenção alheia, a jogadora de merda na cara (e no ventilador) de terceiros até o fim da eternidade, euzinha, eu mesma, Ana Paula da Silva Sauro, deixei todos, todos eles (assim como os cartões de saúde) bem guardadinhos e protegidos…. no cofre de casa.

Sim, deu ruim.

Toca o tio sair correndo para pegar as carteirinhas na Morada dos Ramos. Toca o motorista chispando na hora do rush para atravessar a cidade. Toca pai e irmã heróis fornecerem doses cavalares de açúcar para nos distrair. Toca correr para o banheiro com chocolate quente all over das camisetas brancas das meninas.

Tudo que conseguia pensar era no tamanho do chilique que teria dado se o esquecimento tivesse sido do maridón.  Quase salivei imaginando a bronca homérica. Mas não, ninguém para culpar, a mula fui eu (o que, confesso, dá uma raiva ainda maior).

O tempo, que estava tranquilo pela primeira vez na história da humanidade, começou a apertar. Pessoas ligando e mandando mensagens “e aí?”, moça do check in dando aquela aterrorizada básica “Deveria ter chamado um motoboy, vou ter que tirar suas malas do voo”. Sádica a tia.

Quarenta minutos antes da decolagem, chororô de despedida na boca do embarque e nada dos documentos.

Mas eis que aparece quem? A equipe do Chegadas e Partidas do GNT (sempre, sempre, sempre choro com esse programa, fecha parênteses) de mala, cuia e Astrid, para nos entrevistar.

Porque, claro, se é para passar perrengue, que seja em rede nacional, né?

Meninas falando pelos cotovelos, Cecília querendo contar a vida, sem deixar a coitada da produtora fazer as perguntas, eu chorando e abraçando minha irmã. Um show de elegância e finesse inerentes à Família Buscapé.

Nesse meio tempo, as carteirinhas finalmente chegaram e eu saí correndo durante a matéria, sem dar satisfação. Diretora gritando atrás de mim que precisava da autorização de imagem, os RGs das meninas caindo pelo caminho, a moça da filmagem me ajudando a recolher. Aquele momento clássico em que tudo que se pode fazer é contar com o bom senso da galera da edição (Deus, nunca te pedi nada. Obrigada. Amém).

Fila do Raio-X.  Viúva Porcina aqui apitando loucamente, Pilar chorando porque eu estava sendo presa e ela não queria crescer sem mamãe (quase nada dramática), Dora correndo DO LADO DE DENTRO do balcão, subindo na cadeira da funcionária para ver “a televisão”, garota da minha frente sendo presa em flagrante, com drogas na mala (quem, quem, quem faz isso??).

Mas girl power! Yes, we can! Vamos viajar sozinhas! Olha que ótima ideia!

Meia hora para a decolagem e nós ainda na Polícia Federal.

Como sorte é tudo nessa vida, pegamos um atendente em treinamento e a responsável mais mal humorada do universo, que nos seguraram por exatos VINTE E QUATRO MINUTOS, até lerem cada vírgula de cada autorização. Marcados no relógio. Sem exagero nenhum. Foi mais rápido parir essas crianças do que liberá-las ali, certeza.

Enquanto isso, Dodoca vidaloka resolveu matar o tempo fazendo o que? Brincando com o extintor de incêndio, é claro.

Segurança limitou-se a me olhar with lasers e dizer: “Senhora, controle sua filha, por favor!”.

Opa! Deixa comigo! Agora que o senhor comentou, entendi meu papel. Total controle da situação 👌🏻

Eis que o atendente da companhia áerea veio esbaforido nos encontrar, anunciando: “Sinto muito, não dá mais tempo, tiraram suas malas do voo”.

Pilar começou a chorar desesperada, com as mãozinhas no rosto, repetindo em looping “E agora?? E agora?? Como vamos fazer, mamãe?? Nunca mais vamos ver o papai?” (dramática, lembram?).

Cena foi tão inesperada (Fernanda Montenegro, me liga! Tenho umas dicas para vc! 😉), que o moço se comoveu e passou um rádio “Tá bom, vamos tentar! Mas corram!”.

Saímos Forest Gump style, sem nem olhar para trás.  Dora ficou gritando e chorando que perdeu os sapatos em algum ponto entre a invasão do raio-x e o extintor de incêndio. Mocinho (um santo!) voltou afobado, catou a criança no colo, todos os pertences dela (inclusive a boneca, que também perdeu o sapato) para irmos mais rápido, eu agradecendo de joelhos (mas ainda correndo), até que ela solta: “Tio, fiz cocô. E tá fedorento”.

Choque.

Aí eu fiz o que qualquer mãe faria no meu lugar: fingi demência, surdez, inapitidão social e continuei correndo como se não houvesse amanhã, com meus fones de ouvido imaginários ligados.

Tripulação nos esperando na porta com cara de julgamento, cartões emitidos manualmente porque sistema já estava fechado, passageiros nos olhando torto.

Pessoas já tinham ocupado nossos lugares e tiveram que mudar. Eu ainda tive que trocar uma fralda DA-QUE-LAS (achei que pedir para o mocinho seria too much 😂) antes de autorizarem a decolagem.

E pensam que acabou? Não, não! Poderia seguir aqui ad eternum, com a saga do voo em si, as meninas quebrando tudo, a comissária dizendo que era o último garfo do voo, para, por favor, não derrubarem dessa vez, a Pilar perguntando para o moço ao lado por que ele estava viajando sozinho, se não tinha amigos, nem família ou virando a exorcista e vomitando as tripas.  Mas acredito que vcs entenderam o espírito do caos, né?

Basta dizer que na hora do desembarque, todos os passageiros em volta (e tripulantes!) se despediram das meninas PELOS NOMES.  E que o mocinho que se dispôs a carregar as malas de mão para mim até a imigração, enquanto eu levava a Dora no colo, foi DERRUBADO pela Cecília na esteira rolante. Isso mesmo, na horizontal. Ele lá, coitado, de quatro na esteira, bagagens tombadas no chão e ela gritando: “Doeu! Doeu! Foi tudo culpa dele!! Ele estragou sua mala e nem pediu desculpas, mama!”.

Talvez eu tenha chorado, prefiro não lembrar.

Enfim, poderia estar matando, roubando, enganando, mas estou aqui, dividindo a humilhação pública com vcs e me preparando psicologicamente desde já para a volta em dezembro. A menos que uma boa alma se ofereça para a tentadora missão de nos acompanhar no traslado.

Alguém? Plis?

Gratifica-se bem.

Força, Paola.

#pareceumepisódiodoChavesmasinfelizmentenãoé

#jornalismoverdade

#maternidadereal

#premiadafeelings

#moradadosramosafilial

#dropsdeumavidanaalemanha

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4 pensamentos sobre “Drops de uma vida na Alemanha – parte 8 (A saga do voo de volta OU Entre elevadores, malas, documentos esquecidos, extintores de incêndio e a Astrid OU Senta que lá vem história)

  1. Paula-do-ceu!!!!!!

    Não sei se rio ou choro!!! hahahaha
    Que dó, que dó…. hahahaha

    Guerreira é pouco, mulher!!!

    E oh que se a tal recompensa for uns diazinhos prévios com vcs – com passagem inclusa 😛 – eu vou te ajudar em dezembro!!! hahahaha

    Beijo!

  2. Paulinha, eu estou até agora rindo da sua saga! Delícia de texto! Beijo pra você, as filhotas e abraços no maridón.
    Tio Paulinho

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