Drops de uma vida na Alemanha – parte 4 (Tengo la camisa – y todo el resto – negra)

Aí a raiz do meu cabelo começou a crescer.  Tentei me enganar, disfarçar as evidências, negar as aparências, até que não teve mais jeito, era reeeeealmenteeeeeee hora de tingir.

O problema é que frequento o mesmo salão há séculos, o que significa que não tenho a menor ideia de qual seja a minha cor.  Chego lá, sento e a mágica acontece, saio prontinha da silva sauro, sem nenhum acidente de percurso.

Mas, se tem uma coisa que aprendi nesses meses morando fora é que as pessoas fazem TUDO sozinhas.  Tipo TUDO.  E bem ou mal, estou meio que sobrevivendo, né?

Foi aí que caí na primeira armadilha: aquela autoconfiança traiçoeira, conquistada após muitos anos de infância moldada pela Xuxa, com aquele mimimi de querer, poder, conseguir, sabem?

Não sou nenhuma gênia, longe disso.  Porém, ganhei Prêmio Rotary no colégio uma vez, entrei direto na faculdade, passei de primeira na OAB. Acho que tenho capacidade para passar espuminha no cabelo, certo?

Errado.  Muito errado.  Erradíssimo.

Comecei até que bem. Cheguei ao supermercado, escolhi a cor, vi que a caixinha custava menos de quatro euros, saí de lá toda pirilampa, me achando A MALANDRA, show me something, brazilian baby, etc e tal.

Aí começou a saga.

Primeiro, as instruções eram em alemão. 👌🏻🙄

Mas como sou brasileira e não desisto nunca, decidi seguir os desenhinhos, não poderia ser tão difícil.

Fui espalhando a gosma pelo cabelo tipo #vidaloka, chock-chock, pinga no chão, pinga na pia, pinga na roupa.

Percebi que iria precisar de um pente, porque aquilo estava virando um ninho de pomba. Aí tira a luva com a boca, mancha o queixo, abre o armário, pega o pente, põe a luva de volta, mancha o braço, as pulseiras tudo, chock-chock-chock.

Após alguma dificuldade, tinta malemá passada, entre mortos e feridos salvaram-se todos. Sucesso Capim Cubano.

Aí lembrei que precisava pegar a touca, dentro do bendito armário de novo.  Tira luva, põe luva. Limpa os cabelos que caíram na pia com a luva suja, mancha tudo, joga a luva fora (grande erro).

Esperei meia hora sentada no chão do banheiro, sem encostar na parede, para não manchar móvel nenhum (coluna em choque, tipo “era assim que eu deveria viver??”, bibibi bobobó).

Aí a cabeça coçou, luva já no lixo , manchei a unha, o dedo, o nariz (?), o pescoço, a testa (mais), a alma.  Quis chorar, porém perseverei, pensando que é como chupar caroço de manga, a meleca é dada, o importante é querer, poder e conseguir, só que em uma versão já menos alegre e saltitante.

Trinta minutos passados, fui pegar a toalha com todo cuidado para entrar no chuveiro, usando só as pontas dos dedos e, batata, ela caiu dentro da privada.  Pior, molhou tudo no caminho até a lavadora, OUCEJE, agora terei que lavar o banheiro também.

Aí precisei tirar a blusa e, bom, ela teve que ir para o lixo de forma prematura, com sua grande amiga, a luva (nota mental: usem blusas com botões. Muito mais importantes do que filtro solar ou camisinhas nessas horas #ficaadica).

Entrei no banho, liguei o chuveiro e aí, amores, aí o sertão virou mar. Negro. Tipo piche no golpe do vidro do carro.

Tinha tinta preta por tudo, tudo, tudo, Papai Noel: piso, paredes, costas, rosto, peito, braços, cortina (banheiros aqui não têm box. Por quê??? Por quê?? Por quêêêêêê???) e até nos dedos dos pés.

Mil horas no banho até limpar o encardido (mal ae, Cantareira germânica 😬), sequei o cabelo rapidinho, de qualquer jeito, mega ansiosa para ver o fruto do meu árduo trabalho.

Resultado: a notícia boa é que não fiquei ruiva, nem loira, como temia.  A ruim é que fiquei morena.  Mas morena MESMO.  Mortícia Addams level.  Vou demorar umas quatro lavagens até poder olhar de novo no espelho sem cantar, estalando os dedos.

Quer dizer, a conclusão é única e bem óbvia, né, minha gente: sim, o preço da tinta é apenas 4 euros.  O que ninguém conta é que os outros muitos dinheiros que vc paga no salão são pela sua dignidade.

FIM.

Mortícia 2

 

4 pensamentos sobre “Drops de uma vida na Alemanha – parte 4 (Tengo la camisa – y todo el resto – negra)

  1. Pingback: Drops de uma vida na Alemanha – parte 6 (O dia em que precisei de um botão de ejetar) | PAULAtinamente

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