Nina

Nina tinha dono, mas dava suas voltinhas por aí. Aquela velha história de que gato gosta de liberdade, sabem?

Um belo dia ela não voltou. Ficou umas duas semanas sumida, até que sua dona a encontrou caída na rua, em uma situação realmente precária.

Por absoluta ignorância, a tal da dona cuidou da Nina dando apenas mastruz com leite (não era arnica, confundi a erva milagrosa). As despesas com veterinário seriam muito altas e não caberiam no orçamento familiar.

Foi preciso quase um mês de agonia, até que a Nina viesse parar em minhas mãos. Esquálida, com olhar perdido, mal reagia aos estímulos.

O diagnóstico da veterinária foi assustador: Nina não tinha temperatura (nem conseguia manter quando aquecida), estava com a costela fraturada, lipidose, pancreatite, cálculos na bexiga, hematoma considerável no abdome e cistos nas vértebras torácicas, causando compressão medular.

Em linguagem de leigos, Nina estava morrendo. Aos poucos, com dor, muito sofrimento e de forma precoce. Uma gata linda, de apenas dois anos, com a vida inteira pela frente.

Foram dois dias de tratamento intensivo, porém, mesmo assim, Nina partiu.

Queria muito poder dizer que ela descansou e que estou com o coração em paz, sabendo que fizemos tudo o que podíamos.

Mas não é verdade.

Não dá para ficar tranquila sabendo que Nina sofreu e sofreu muito, por mais de um mês. Teve dor, teve medo, sentiu frio, sentiu fome.

Agora estou aqui, com o coração sangrando, chorando pela Nina, pelos mais de dez anos de vida que lhe foram roubados, por ter chegado tarde, por não ter conseguido salvá-la, por tantos e tantos casos semelhantes espalhados por aí todos os dias, nesse mundo cão.

Choro de tristeza, de pena, de impotência. Choro por ver mais uma batalha perdida.

Mas só hoje. Amanhã já tenho que enxugar as lágrimas e levantar.

Outras Ninas virão, infelizmente.

Nina

8 pensamentos sobre “Nina

  1. Ai Paula… de partir o coração mesmo!
    Outras Ninas virão, mas tb outras “Paulas”… tenho ainda um fiozinho de esperança de que a humanidade tem salvação… mesmo com tanta ignorância solta por aí.

    • Eu espero, de verdade, que tenha salvação mesmo, Michely. Cada “Nina” que aparece me faz perder um pouquinho a esperança. Mas, já que não temos como evitar os finais tristes, o jeito é continuar a nadar, em busca dos felizes, né?

  2. Pingback: Salagadula, mexegabula, bibidi-bobidi-bu… | PAULAtinamente

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  4. Compartilho da sua dor. Já cuidei de mais de uma Nina. Já abri covas para gatinhas lindas que não consegui salvar. Já chorei sobre covas, prometendo nunca mais chorar. Mas eu sempre choro. E sempre continuo tentando.

    • É um caminho sem volta, né? Depois que abrimos os olhos, fica impossível fechar de novo. O trabalho é de formiguinha, a gente vive enxugando gelo, mas como ignorar um pedido de ajuda? O jeito é seguir em frente, outras Ninas sempre virão…. Força e coragem para nós!

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