Prazer, Salomé.

Aí a pessoa recebe outro pedido de ajuda para um filhotinho preto e paraplégico, sai correndo para resgatá-lo no CCZ e descobre que foi eutanaziado, por falta de aparelho de raio-x….

Já estava indo embora com o coração partido, aos prantos, quando um miado tímido chamou minha atenção.  Era uma senhorinha linda e doce, chamada Salomé, que estava ali há anos esperando uma oportunidade, mas nunca foi escolhida por ser caolha e ter o vírus da FIV.

Abaixei, fiz carinho, chorei mais um pouco, inconformada por vê-la há tanto tempo em uma gaiola, sem a menor perspectiva de ser adotada.

E, então, a escolhi.

Salomé agora tem nome, sobrenome, casa e família. Já circulou pela sala, comeu, usou a caixinha de areia, pediu carinho, brincou com a Pi e, no momento, dorme tranquila, esparramada no sofá, como sempre deveria ter sido.

Parece que viveu a vida toda aqui.  Ou entendeu que seu final feliz finalmente chegou.

A vaga Jojo da Fundação Martinez-Ramos foi preenchida de uma forma diferente dessa vez.  Ela não cruzou meu caminho, não foi salva da rua, não estava morrendo.  Porém, precisava de mim.  E eu dela, para ocupar o vazio que a Farofa-fa deixou.

Dizem que nada acontece por acaso.  Acho mesmo que é verdade.

Seja bem-vinda, filha.

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Sobre violência obstétrica e o que escolhi para ficar do meu parto

Em tempos de Adelir, bateu uma vontade sincera de falar sobre o parto da Lily (também porque o filminho chegou essa semana e a saudade me pegou de jeito, admito.  Certeza que vou acabar virando aquelas grávidas profissionais.  Cer-te-za.).

Depois fiquei pensando que não tenho nada de muito útil a acrescentar, além de tudo o que já foi tão falado e discutido por aí.  Sim, sofri violência obstétrica de verdade, em diversos momentos daquele dia.  Mas, apesar dos pesares, não foi isso que marcou meu parto.

Ao invés de ficar remoendo a auxiliar que me cortou toda com gilete; o obstetra que me enganou; a enfermeira que pegou meu nervo junto com a veia e deixou meu dedo dormente até hoje; os braços amarrados; o tempo infinito longe da minha filhota; ou o anestesista sem noção, que me deu um pito à la professor da quinta série, minutos antes do nascimento, por causa do celular – que eu sequer estava usando -, preferi guardar na memória tudo de lindo e especial que vivi naquele dia:

– a reação mais sincera impossível do maridón, ao ver minha bolsa estourando às três horas da manhã, sendo que tínhamos deitado a uma: “Aaaaahhhhh, nãooooooo….. Agora?? Jura??” (filha, se vc estiver lendo, essa parte é mentira, a reação dele, para todos os efeitos, foi: “Ieiiiiii, que alegria! Que timing Ó-TE-MO, vamos celebrar!”);

– meu primo rindo de mim e tirando fotos, porque eu quis pintar as unhas antes de ir à maternidade (momento menininha grau mil, eu sei.  Prioridades, minha gente, prioridades);

– o lanchinho em família às cinco da matina, assistindo Friends com a Pi no colo, porque ela obviamente acordou bem na hora em que estávamos saindo (e também porque a Fiona aqui sabia que iriam miguelar comida assim que eu pisasse no hospital);

– o assistente fofíssimo do meu médico, que tinha adotado dois gatinhos na ONG e passou o parto todo falando sobre gatos comigo;

– o maridón, sempre ao meu lado, segurando minha mão, fazendo cafuné e falando coisas meigas (das quais não lembro uma única palavra, mas o que vale é a intenção, né?);

– o fato da Cecília ter nascido no momento dela, calma, serena, tranquila e sem chorar (o que me deixou bastante desesperada na hora, confesso.  Só agora consegui perceber a beleza disso);

– a alegria imensa que senti ao ver o rostinho dela, enxergar ali um pedacinho de mim e me apaixonar perdidamente de novo e de novo;

– a carinha da Pi ao conhecer a irmã, em um misto de ciúme, ansiedade, curiosidade e encantamento; e,

– a plenitude que me invadiu ao ver minhas duas filhotas em meu colo, juntas pela primeira vez.

Foram tantas coisas mágicas, especiais, inesquecíveis, que o resto ficou pequeno, passou.

Sei que a violência obstétrica é assunto sério, uma realidade gravíssima em nosso país, uma vergonha.  Também sei que existem vários graus de desrespeito e que cada pessoa lida com o abuso de uma forma diferente.

Por isso, EU escolhi não deixar que essas coisas manchassem um dos dias mais lindos da minha vida.  Não foi perfeito, não foi como eu planejei, porém preferi ser feliz, focar em tudo de incrível que aconteceu, rir da minha própria desgraça.

Afinal de contas, não é sempre que se recebe uma depilação feita pelo Edward Mãos de Tesoura e se aparece na sala de parto sangrando, com uma brazilian wax pior do que aquele cabelo bicolor pavoroso da Ana Maria Braga.  Acreditem, seria BEM cômico, se não fosse triste.

A vida é assim, às vezes se ganha, às vezes se perde.  Eu perdi meu parto normal, mas ganhei uma filha linda e uma história cheia de reviravoltas para contar. Quem tiver curiosidade, me convida para um café, que eu conto! 😉

E segue o jogo.

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Bolsa estourou em plena madrugada, depois de trabalhar, arrumar o quarto da Lily e fazer pilates? Deixa eu pintar minhas unhas, então!Imagem #partiumaternidade Montagem parto Lily #amormaiordomundo

Do apego às monoteníces

O blog anda monotemático essa semana, eu sei.

Em minha defesa, a viagem pela Europa foi adiada por tempo indeterminado, minha última gafe não pode ser publicada, todas as fofocas que tenho para contar ainda são segredo, fiz um divórcio e um contrato essa semana, mas acho que ninguém se interessaria por eles.  Ou seja, não acontece muita coisa por aqui.

Os dias são todos da Marmota, com a Lily chorando/mamando/engordando como se não houvesse amanhã; a Pi aprendendo um mundo de coisas novas, vivendo praticamente como o Mogli – pelada e descalça, no meio da bicharada -; e eu descabelada, tentando dar conta de tudo, com um cansaço nível dormi-sentada-na-cadeira-do-cabelereiro (dignidade, cadê vc?).

Mas ser mãe é um troço tão maluco, que fico com o coração apertado só de lembrar que faltam menos de dois meses para minha licença acabar.  Menos de dois meses para eu voltar à rotina e deixar minhas filhotas com outras pessoas durante o dia.  Menos de dois meses para eu ser um pouco mais Paula, pessoa física, adulta, advogada, louca dos bichos (ok, isso eu nunca deixei de ser, esquece).

E aí eu começo a chorar.  Maduro, moderno, evoluído.  Só que não.

Sei que vou superar a crise e conciliar tudo.  Já fiz isso uma vez, vai dar certo.  Sei que minhas filhas ficarão muito bem, obrigada e que essa independência é importante para mim.

Difícil está apenas explicar para o meu coração que trocar tardes recheadas de cenas como essa por processos chatérrimos será bacana.

Preciso de argumentos mais convincentes ASAP.  Ou de abraços. Ou de chocolates. Ou de doações anônimas para o fundo Paula-passe-os-dias-com-seus-filhos-e-seja-feliz. Ou de tudo ao mesmo tempo agora.

Alguém?

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Para curar a ressaca

Três dias se passaram e a tristeza continua instalada por aqui. Meu leite quase secou. A Pi procura a Farofa pela casa, chama, chama, chama e faz “cadê” com as mãozinhas. Eu ainda a espero, inconscientemente, todos os dias no café da manhã.

Tentei seguir em frente e acolher um filhotico preto, paraplégico, mas não deu certo, ele não resistiu.

Acho que essa, definitivamente, não é minha semana.

Ainda bem que tenho uma equipe-particular-de-apoio-para-coração-esmigalhado a postos, sempre ao meu lado, pronta para ajudar a recolher os caquinhos e enxugar as lágrimas, que insistem em cair.

Obrigada também a todos que, de alguma forma, deram um jeito para que seu carinho chegasse até aqui, nesses dias tão cinzas. Quem tem amigos, tem mesmo tudo.

Então é isso.

Os cães ladram, a caravana passa, a vida segue. E lá vamos nós…

#farofa-fa

#ohana

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Para minha segunda estrelinha

Farofa foi abandonada já idosa, em um hospital veterinário para eutanásia, quando seu dono descobriu que ela tinha FIV.  Dizem que ele nem olhou para trás, sequer se despediu.

Ela veio para cá escondida, roubada da clínica e, aos poucos, fomos descobrindo que além da AIDS, era muda, tinha problemas renais, fígado e baço comprometidos, dentes podres e vários tiros de chumbinho pelo corpo.

Mas nada doía mais do que a tristeza em seu olhar.

Farofa nunca superou o abandono, nesses oito meses em que esteve aqui.  Vivia escondida, tinha medo de tudo, subiu ao meu lado no sofá pouquíssimas vezes e, mesmo assim, sem se deixar tocar.

Após meses de homeopatia, passou a me seguir, de longe, pela casa.  Foi o máximo de amor que consegui extrair dela.

Por isso, quando descobrimos um câncer avassalador em seu rim na semana passada, eu já sabia qual seria o final dessa história.

Farofa desistiu de viver.  Em nenhum momento lutou, esboçou reação ou se esforçou pela recuperação.  Mais do que a FIV, o câncer ou a doença renal crônica, o que levou minha filhota foi a tristeza.

Agora estou aqui, com o coração apertado, doendo de saudade e com uma sensação de impotência que não cabe em mim.  Sinto por ter falhado, por ver o estrago do abandono tão de perto, por ter dado meu melhor para que ela fosse feliz e ainda assim não ter sido suficiente.

Porém, pior do que tudo isso, é a dor da culpa.

Os profissionais do hospital veterinário no qual ela ficou internada esses dias falharam em inúmeros pontos, foram negligentes, incompetentes e profundamente insensíveis.  Mas nada, nada machuca mais do que terem me negado a oportunidade de me despedir da minha filhota.  Não há consolo, não há desculpa, nem explicação.

Farofa morreu sozinha, em uma gaiola, sem carinho, nem conforto, justamente como tentei evitar que acontecesse há exatos oito meses.

Como me perdoar por isso?

Como esquecer?

Como acalmar o coração?

Brilha, minha estrelinha, brilha forte.

Espero que agora vc possa ser feliz.

Te amo para sempre.

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