Sobre violência obstétrica e o que escolhi para ficar do meu parto

Em tempos de Adelir, bateu uma vontade sincera de falar sobre o parto da Lily (também porque o filminho chegou essa semana e a saudade me pegou de jeito, admito.  Certeza que vou acabar virando aquelas grávidas profissionais.  Cer-te-za.).

Depois fiquei pensando que não tenho nada de muito útil a acrescentar, além de tudo o que já foi tão falado e discutido por aí.  Sim, sofri violência obstétrica de verdade, em diversos momentos daquele dia.  Mas, apesar dos pesares, não foi isso que marcou meu parto.

Ao invés de ficar remoendo a auxiliar que me cortou toda com gilete; o obstetra que me enganou; a enfermeira que pegou meu nervo junto com a veia e deixou meu dedo dormente até hoje; os braços amarrados; o tempo infinito longe da minha filhota; ou o anestesista sem noção, que me deu um pito à la professor da quinta série, minutos antes do nascimento, por causa do celular – que eu sequer estava usando -, preferi guardar na memória tudo de lindo e especial que vivi naquele dia:

– a reação mais sincera impossível do maridón, ao ver minha bolsa estourando às três horas da manhã, sendo que tínhamos deitado a uma: “Aaaaahhhhh, nãooooooo….. Agora?? Jura??” (filha, se vc estiver lendo, essa parte é mentira, a reação dele, para todos os efeitos, foi: “Ieiiiiii, que alegria! Que timing Ó-TE-MO, vamos celebrar!”);

– meu primo rindo de mim e tirando fotos, porque eu quis pintar as unhas antes de ir à maternidade (momento menininha grau mil, eu sei.  Prioridades, minha gente, prioridades);

– o lanchinho em família às cinco da matina, assistindo Friends com a Pi no colo, porque ela obviamente acordou bem na hora em que estávamos saindo (e também porque a Fiona aqui sabia que iriam miguelar comida assim que eu pisasse no hospital);

– o assistente fofíssimo do meu médico, que tinha adotado dois gatinhos na ONG e passou o parto todo falando sobre gatos comigo;

– o maridón, sempre ao meu lado, segurando minha mão, fazendo cafuné e falando coisas meigas (das quais não lembro uma única palavra, mas o que vale é a intenção, né?);

– o fato da Cecília ter nascido no momento dela, calma, serena, tranquila e sem chorar (o que me deixou bastante desesperada na hora, confesso.  Só agora consegui perceber a beleza disso);

– a alegria imensa que senti ao ver o rostinho dela, enxergar ali um pedacinho de mim e me apaixonar perdidamente de novo e de novo;

– a carinha da Pi ao conhecer a irmã, em um misto de ciúme, ansiedade, curiosidade e encantamento; e,

– a plenitude que me invadiu ao ver minhas duas filhotas em meu colo, juntas pela primeira vez.

Foram tantas coisas mágicas, especiais, inesquecíveis, que o resto ficou pequeno, passou.

Sei que a violência obstétrica é assunto sério, uma realidade gravíssima em nosso país, uma vergonha.  Também sei que existem vários graus de desrespeito e que cada pessoa lida com o abuso de uma forma diferente.

Por isso, EU escolhi não deixar que essas coisas manchassem um dos dias mais lindos da minha vida.  Não foi perfeito, não foi como eu planejei, porém preferi ser feliz, focar em tudo de incrível que aconteceu, rir da minha própria desgraça.

Afinal de contas, não é sempre que se recebe uma depilação feita pelo Edward Mãos de Tesoura e se aparece na sala de parto sangrando, com uma brazilian wax pior do que aquele cabelo bicolor pavoroso da Ana Maria Braga.  Acreditem, seria BEM cômico, se não fosse triste.

A vida é assim, às vezes se ganha, às vezes se perde.  Eu perdi meu parto normal, mas ganhei uma filha linda e uma história cheia de reviravoltas para contar. Quem tiver curiosidade, me convida para um café, que eu conto! 😉

E segue o jogo.

Imagem

Bolsa estourou em plena madrugada, depois de trabalhar, arrumar o quarto da Lily e fazer pilates? Deixa eu pintar minhas unhas, então!Imagem #partiumaternidade Montagem parto Lily #amormaiordomundo

13 pensamentos sobre “Sobre violência obstétrica e o que escolhi para ficar do meu parto

  1. Que post lindo!!!
    Admiro quem consegue “escolher o que fica” assim, de verdade… eu, se não me policio com muita frequência, acabo sofrendo de amargura, sabe?! rs

    Adorei a sua escolha nesse caso!

    E, oh, não posso te levar pra tomar um café, mas tô viciada nessa história de parto e fiquei curiosa…adoraria bater um papo sobre o assunto! =)

    Beijos

  2. Sinto muito pelo que você passou no seu parto, Paula… A cada dia escuto mais relatos como o seu, fico sempre em choque! Acabo de descobrir que estou grávida (apesar de ainda não divulgar em blog e etc) e espero que o tratamento “por aqui” seja mais humano. Fico feliz pelo fato de você escolher guardar a parte boa mas também acho que é importante falar sobre o que aconteceu. Apesar de tudo você não perde o humor, não é? Beijos na sua grande família!

  3. Pingback: Feliz aniversário, Cecília! :) | PAULAtinamente

  4. Pingback: Plano de parto | PAULAtinamente

  5. Pingback: Ainda sobre violência obstétrica | PAULAtinamente

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