E lá se vão vinte anos…

Hoje faz vinte anos que minha avó morreu.

Dizem por aí que avós são todas iguais, só mudam de endereço, mas a minha não. Ela era diferente.

Minha avó era muito prática, não gostava de firulas, nem de mimimis. Seu apelido era “Loló Vingativa”.

Tinha a escova de dentes “dos netos” (o neto que estivesse na casa dela usava). Dirigia feito maluca, sempre acima da velocidade. Achou que minha irmã brincava, feliz, na praia, enquanto, na verdade, ela estava sendo perseguida por um pastor alemão solto. E ainda acenou, animada: “como se divertem essas crianças!”.

Minha avó beliscava meu bumbum e dizia que era o “pão doce da vovó Cecília”. Quando, no meio das férias, eu reclamava por não ter o que fazer, ela me mandava pintar as letras “os” do jornal com canetinha, em invés de parar e brincar comigo (que avó faz isso??). Dizia para eu não chorar, que minha banguela bem na frente, na semana em que eu seria dama de honra, era um porta-pirulitos perfeito. Emprestava suas camisolas longas, para eu brincar de princesa.

Uma vez, ela deu uma sapatada na perna do marido da visita sem qualquer aviso, para matar uma barata. Quebrou a costela e não contou para ninguém, porque iriam querer que ela fosse ao hospital e fizesse repouso. Ficou mortificada quando caiu na feira e o mocinho que a acudiu a chamou de vovozinha e não de tia (“doeu mais do que o tombo”).

Minha avó teve um dos primeiros rins transplantados do país e ficou satisfeita quando disseram que teria dez anos de sobrevida. Mas o tempo passou e ela achou pouco. Não era o suficiente, ela queria mais. Viveu vinte e um.

Ela era aquele tipo de mulher forte, confiante e independente. Eu a vi chorando apenas duas vezes: quando meu avô morreu e no final de “O Campeão”. Por isso, nunca tive coragem de assistir a esse filme, deve ser triste de verdade.

Lembro como se fosse hoje, do dia em que ela se despediu de mim e disse: “Quero que vc se lembre da vovó feliz e saudável, não assim. Promete?”.

Eu prometi e cumpri. Porque é impossível pensar na minha avó e não sorrir.

Avós podem ser sim todas iguais, mas a minha não. A minha era única, singular, especial.

É uma pena que ela não tenha tido tempo de conhecer minhas meninas, eu ficaria muito orgulhosa em apresentá-las e dizer: “fui eu que fiz, vó!”. Ela responderia: “São lindas! E não é porque sou coruja. Que culpa eu tenho se as crianças mais bonitas sempre caem na minha casa?”.

Tantas lembranças, tantas histórias, tanta saudade. O tempo passa e o vazio continua por aqui. Vinte e um anos podem ter sido um sucesso para a medicina da época, porém foram pouco para mim. Eu queria mais.

Queria minha vó na minha formatura, no meu casamento, nos meus partos. Queria colo de vó, comida de vó e aquela risada debochada, de quando ela fazia uma piadoca politicamente incorreta (ou seja, sempre).

Queria tanto mais um pouco dela, que dei seu nome para um pedacinho de mim.

Sei que não é a mesma coisa e que ela não vai voltar. Porém, de Cecília em Cecília, o mundo vai ficando um pouquinho melhor e mais divertido.

#saudades

#ohana

#cecílias

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9 pensamentos sobre “E lá se vão vinte anos…

  1. Me fazendo chorar no meio do trabalho… que delícia ler e relembrar de cada história dessas. Ela sempre foi e sempre será muito especial… única! ♥

  2. Pingback: Dora | PAULAtinamente

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