Não desiste, filha. Por favor.

Quando a gente perde um filho, fica pensando que ganhou uma trégua do universo, que nada de ruim vai acontecer na sua vida durante um tempo, tipo uma saída livre da prisão.

Só que, infelizmente, as coisas não funcionam assim.

Menos de um ano após perder a Jojo para um linfoma horrível, estou sendo obrigada a reviver todo o drama com a Farofa-fa. E, dessa vez, o câncer é avassalador. Cresceu em menos de um mês e derrubou a minha filhota de uma vez.  De uma semana para cá, ela já não consegue mais ficar em pé, comer, nem respirar direito, sem ajuda da câmara de oxigênio.

Farofa está internada desde sexta-feira e o prognóstico é péssimo, mas não consigo abandoná-la, nem deixa-la descansar.  Pelo menos não ainda.

Não consigo parar de lutar pela minha filhota.  Minha cabeça sabe o que deve fazer, porém meu coração não consegue entender que está perdendo a batalha mais uma vez.  É muito injusto. Especialmente depois de encontrar dois novos tiros de chumbinho alojados em seu tórax, no exame de hoje.  Quanto será que ela sofreu até chegar aqui?

Parece um contrassenso salvá-la da eutanásia e fazer o mesmo, oito meses depois.  Parece que não esgotei todas as possibilidades.  Parece que ainda não fiz pela Farofa tudo que ela precisa.

Farofa merece mais dias de sonecas no sofá, de solzinho na varanda e sachês antes de dormir.  Farofa merece ser tratada com respeito, com atenção, com todo o cuidado que um bichinho demanda.  Farofa merece ser feliz por mais alguns meses.

Por isso não posso jogar a toalha.  Não ainda.  Não sem tentar tudo.

O tempo passa, os problemas mudam, a vida segue.  E eu mais uma vez estou aqui, com um buraco no peito, o coração partido, esperando um milagre acontecer.

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Das delicadezas e suas lições :)

Larota pesa quarenta e cinco quilos. A Pi, treze (abafa o caso).

As duas têm a mesma altura e a boca da Lara é do tamanho da cabeça da Pi.

Contudo, nada disso impede que a Lara trate minha filha com toda delicadeza e paciência do mundo.

Animais são assim, não usam seu tamanho para intimidar ou coagir. O amor sempre prevalece no mundinho deles.

Por isso, temos muito a aprender com os bichos e mais ainda a ensinar para as futuras gerações.

Quem sabe um dia, se fizermos tudo direitinho, poderemos acessar a internet tranquilos, sem encontrar um leopardo sendo queimado vivo até o último suspiro, enquanto as pessoas ao seu redor dão risada.  Ou uma girafa sendo assassinada com um tiro, na frente de várias crianças, “para evitar consanguinidade”.  Ou uma família inteira de leões eutanasiada, para não ter atrito com o novo macho, que está para chegar ao zoológico.  Ou filhotes de baleia separados das mães e confinados em aquários incompatíveis com seu tamanho, por uma vida inteira, por pura diversão.

A lista é quase infinita, eu sei.  Mas sonhar não custa nada, né?

Esse vídeo da Pi levando a Lara para passear (ou vice-versa) renova minha esperança de que tudo pode sim ser melhor e diferente, basta plantarmos as sementinhas certas.

Quem não fizer “owwwwwwnnnnn” e vomitar arco-íris com a cena final, só pode ser mesmo doente do pé.

Ou, pior ainda, do coração.

“O mundo só muda se a gente mudar”.

Direto do túnel do tempo – parte 2

Já que a crise de abstinência de viagens anda dominando tudo por aqui e o tom do blog esses dias tem sido a nostalgia, resolvi postar essa foto que encontrei perdida no computador.

Só porque hoje é quarta, lá se vão mais de onze anos e meio e eu continuo te amando.

Barcelona, 2008. Direto do túnel do tempo ♥

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“As coisas lindas são mais lindas

Quando você está

Onde você está

Hoje você está

Nas coisas tão mais lindas

Porque você está”

E lá se vão vinte anos…

Hoje faz vinte anos que minha avó morreu.

Dizem por aí que avós são todas iguais, só mudam de endereço, mas a minha não. Ela era diferente.

Minha avó era muito prática, não gostava de firulas, nem de mimimis. Seu apelido era “Loló Vingativa”.

Tinha a escova de dentes “dos netos” (o neto que estivesse na casa dela usava). Dirigia feito maluca, sempre acima da velocidade. Achou que minha irmã brincava, feliz, na praia, enquanto, na verdade, ela estava sendo perseguida por um pastor alemão solto. E ainda acenou, animada: “como se divertem essas crianças!”.

Minha avó beliscava meu bumbum e dizia que era o “pão doce da vovó Cecília”. Quando, no meio das férias, eu reclamava por não ter o que fazer, ela me mandava pintar as letras “os” do jornal com canetinha, em invés de parar e brincar comigo (que avó faz isso??). Dizia para eu não chorar, que minha banguela bem na frente, na semana em que eu seria dama de honra, era um porta-pirulitos perfeito. Emprestava suas camisolas longas, para eu brincar de princesa.

Uma vez, ela deu uma sapatada na perna do marido da visita sem qualquer aviso, para matar uma barata. Quebrou a costela e não contou para ninguém, porque iriam querer que ela fosse ao hospital e fizesse repouso. Ficou mortificada quando caiu na feira e o mocinho que a acudiu a chamou de vovozinha e não de tia (“doeu mais do que o tombo”).

Minha avó teve um dos primeiros rins transplantados do país e ficou satisfeita quando disseram que teria dez anos de sobrevida. Mas o tempo passou e ela achou pouco. Não era o suficiente, ela queria mais. Viveu vinte e um.

Ela era aquele tipo de mulher forte, confiante e independente. Eu a vi chorando apenas duas vezes: quando meu avô morreu e no final de “O Campeão”. Por isso, nunca tive coragem de assistir a esse filme, deve ser triste de verdade.

Lembro como se fosse hoje, do dia em que ela se despediu de mim e disse: “Quero que vc se lembre da vovó feliz e saudável, não assim. Promete?”.

Eu prometi e cumpri. Porque é impossível pensar na minha avó e não sorrir.

Avós podem ser sim todas iguais, mas a minha não. A minha era única, singular, especial.

É uma pena que ela não tenha tido tempo de conhecer minhas meninas, eu ficaria muito orgulhosa em apresentá-las e dizer: “fui eu que fiz, vó!”. Ela responderia: “São lindas! E não é porque sou coruja. Que culpa eu tenho se as crianças mais bonitas sempre caem na minha casa?”.

Tantas lembranças, tantas histórias, tanta saudade. O tempo passa e o vazio continua por aqui. Vinte e um anos podem ter sido um sucesso para a medicina da época, porém foram pouco para mim. Eu queria mais.

Queria minha vó na minha formatura, no meu casamento, nos meus partos. Queria colo de vó, comida de vó e aquela risada debochada, de quando ela fazia uma piadoca politicamente incorreta (ou seja, sempre).

Queria tanto mais um pouco dela, que dei seu nome para um pedacinho de mim.

Sei que não é a mesma coisa e que ela não vai voltar. Porém, de Cecília em Cecília, o mundo vai ficando um pouquinho melhor e mais divertido.

#saudades

#ohana

#cecílias

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Uma manhã típica na morada dos Ramos – parte 2

Maridón precisou trabalhar no final de semana e eu, me achando A super-heroína, falei: “pode ir tranquilo, eu fico sozinha com as meninas, o que poderia acontecer em duas horas? Vai dar tudo certo”.

Ledo engano. Le-do en-ga-no MESMO.

De cara a Pi acordou chorando, saí correndo, antes que acordasse a Lily também, e bati o dedinho do pé no criado-mudo com toda força.

Cheguei manquitolando no quarto e encontrei a Pi ENSOPADA de xixi, além das duas camas, travesseiros, lençóis, protetor de colchão, colchão, boneca e chão. Tipo um tsunami de urina.

Gastei uns três segundos tentando entender como tudo aquilo poderia ter saído de um bebê de um ano e meio e mais uns dez pensando por onde começar.

Resolvi limpar primeiro a quiança, porque né? Coitada. Eu também estaria chorando se tivesse xixi no meu cabelo.

Quiança pronta, peguei a mamadeira para a Pi ir tomando enquanto eu arrumava o quarto. Só que ela puxou da minha mão, tentou tirar a tampa, arrancou o bico e derramou leite para todo lado, incluindo parede e trocador.

Porque Pilar é do gueto. Ela não tem medo de matar ou morrer, em busca do próximo mamá. E o devora em dois minutos, como se não houvesse amanhã.

Enfim. Limpei o quarto com papel toalha e herbal vet dos gatos, que era o que tinha para hoje.  Nesse meio tempo, os gatos começaram a brigar, os cachorros a uivar e a Liló acordou. Ótimo.

Aí eu fiz o que qualquer mãe faria: ignorei a recomendação do pediatra de só deixar a Pi ver TV após os dois anos e apelei à santa Galinha Pintadinha, para conseguir amamentar.

Foram cinco minutos incríveis de paz, até que começou a chover, o wi-fi caiu e voltamos ao caos. Pi chorando porque a maldita galinha foi embora, Lily chorando porque queria mamar, eu chorando de desespero.  Mencionei que os cachorros estavam uivando e os gatos brigando?

Mas tudo bem, vamos pensar positivo. Falta apenas uma hora e meia – de duas – para o maridón voltar. O que mais poderia dar errado?

#killmenow

Benji

Minha avó tinha falecido na véspera e eu estava a caminho da casa do meu avô, quando vi um cachorrinho ser atropelado – e deixado para trás – em plena Avenida Pacaembu.

Desci correndo do carro para resgatá-lo e ele logo veio para o meu colo, todo encolhido.

Entre correria de veterinário, internação (nem tanto pelo atropelamento em si, mas pelo estado geral em que se encontrava) e tratamento, descobrimos que o Benji já era bem velhinho, tinha uns onze anos, duas hérnias de disco, três bicos de papagaio, o baço e o fígado comprometidos e uma carência infinita.

Benji me seguia pela casa o dia todo, parava de comer para me acompanhar no banho, saía da caminha para deitar aos meus pés, passeava olhando para trás, para confirmar que eu ainda estava ali.  Amor profundo e verdadeiro, como poucas vezes vi.

Quatro anos se passaram, ele se recuperou e hoje nem parece o mesmo cachorro debilitado, que encontrei jogado na calçada.

Dos tempos de rua, sobrou apenas a malandragem. Benji finge que se machucou quando briga com os outros cachorros (que têm o triplo do seu tamanho), levanta a patinha, geme e chora, pedindo colo.  Ele nem imagina que as câmeras de segurança denunciam sua atuação digna do Oscar (e eu, que não sou boba, dou colo mesmo assim, claro).

É inteligente, educado, aprende as coisas muito rápido (pausa para o “aaaaawwwnnnnn” ♥):

Benji é a prova de que amor não tem idade, não tem limites, não faz exigências.  Ninguém discute que filhotes são lindos, fofos, encantadores.  Mas adotar um velhinho e acompanhar sua transformação é daquelas coisas que não têm preço na vida, sabem?  Recomendo de verdade.

Resolvi contar a história do Benjamin Bandolim, porque o afilhado canino de uma amiga virou estrelinha ontem, idoso e sozinho em um abrigo.  Fiquei arrasada, imaginando quantos animais estão na mesma situação, esquecidos em alojamentos, só esperando uma oportunidade.

Quem sabe alguém não se inspira, abre o coração e dá uma chance a quem já perdeu a esperança de ser feliz?

Eu e o Benji estamos torcendo 🙂

#matusalém

#correntedobem

#ohana

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