Tempos de blindagem

Há algumas semanas, maridón e eu estamos discutindo a necessidade de blindarmos nossos carros.

Confesso que, no começo, isso tudo me pareceu uma neurose sem tamanho.   Gastar uma verdadeira fortuna para trocar dois carros novos, que não apresentaram nenhum problema – fora o dia de rodízio – sendo que não somos ricos, famosos, muito menos sub-celebridades-que-agregam-valor-ao-camarote, parecia exagero.

Mas, infelizmente, não é.

Foi-se a época em que existiam pessoas e carros visados ou horários e locais perigosos.  Hoje qualquer dia é dia, qualquer lugar é lugar, qualquer um está sujeito a ter uma arma apontada para sua cabeça, independente de estar em um gol ou em uma BMW.

Prova disso foram os momentos de pânico e terror que passamos domingo, observando, impotentes, o FOX ao nosso lado ser assaltado.  Em plena luz do dia, em uma avenida movimentada, com crianças a bordo.

E aí está o ponto onde eu queria chegar.  Crianças a bordo.  Esse é o divisor de águas na minha vida.  O que fazer se eu for abordada e estiver com minhas meninas?  Como tirar as duas do carro antes de me render, sem fazer movimentos bruscos, sem tomar tiros, sem correr o risco de o bandido acelerar levando embora o que tenho de mais precioso?

Em tempos nos quais as pessoas se dividem entre as turmas do “delinquente tem que morrer” e das “vítimas da sociedade”, estamos nós, pessoas comuns, completamente perdidas, lutando para sobreviver e voltar para casa por mais um dia.

Já oscilei muito entre os dois grupos.  Passei meses abalada, após assistir ao documentário Ônibus 174 (recomendadíssimo, para quem quiser entender um pouquinho do outro lado).  Contudo, a verdade é que não importa se vc é um defensor dos direitos humanos ou um reacionário radical.  Na hora em que a arma estiver apontada para a sua cabeça, o criminoso não vai perguntar que time vc defendeu nos seus posts do facebook.  Isso não fará a menor diferença.

Não existe uma fórmula maniqueísta, regendo o mundo.  Existem pessoas com a índole ruim? Provavelmente.  Existem monstros criados e alimentados pela própria sociedade? Com certeza.  Eu teria coragem de arriscar o bem estar das minhas filhas nessa roleta russa?  Jamais.

Então, certo ou errado, exagero ou paranoia, lá vou eu somar mais um item à blindagem das nossas vidas e me tornar ainda mais prisioneira, em uma cidade doente.  Além das grades nas janelas, do sistema de alarme que apita cada vez que uma porta é indevidamente aberta, dos locais e horários evitados diariamente, lá vou eu blindar meus carros e rezar para não ser a bola da vez.

Triste, porém real.  Tão real, que até dói.

#diasdecalvin

#coraçãodemãe

Farofa-fa

Semana passada, Farofa-fa (história aqui, aqui e aqui) completou dois meses em casa.

A boa notícia é que ela melhorou MUITO com o tratamento homeopático.  Claro que continua bastante desconfiada, não se deixa tocar, ainda tem medo de tudo e de todos.

Mas, ela já reconhece seu novo nome, nos recebe na porta (para fugir correndo em seguida), circula pela casa e deita no sofá, quando não tem ninguém por perto (os pelos esquecidos por ali sempre a denunciam).

A parte chata é que, durante esse período, descobrimos que ela (i) tem cerca de dez anos; (ii) está com os rins e fígado alterados; (iii) é muda ou tem algum problema nas cordas vocais; (iv) precisará de cirurgia para tirar seus pouquíssimos dentes, que estão podres; (v) pode ter ativado o vírus da FIV; e (vi) tem alguns carocinhos espalhados pelo corpo, provavelmente causados por tiros de chumbinho.

Gostaria de poder dizer aqui que o pior já passou, que ela superou o trauma e agora é feliz conosco, porém sei que ainda temos muito chão pela frente.

Ainda bem que não temos pressa e, pelos flagras dos últimos dias, parece que nem vamos precisar.

Farofa-fa arrematou meu coração vagabundo sem dó nem piedade, com seu olhar tristonho, seu “miadinho mudo”, sua história comovente e sua coragem de recomeçar, apesar de tudo.

Está ai a prova de que amor com amor se paga. E vale mesmo cada centavo.

#correntedobem

#perdeuplayboy

#farofa-fa

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Enfermeira-vampira, a gente vê por aqui.

Ontem eu acordei cedo e fui fazer o tal exame da curva glicêmica, em jejum, no dia do rodízio.

O humor já estava uma maravilha, somado àquela agilidade de raciocínio típica da gravidez.

A enfermeira entrou toda simpática e saltitante na sala, ignorando que é assaz deselegante estar naquele grau de animação, naquela hora da madrugada.  Explicou o procedimento, pegou a maquininha para espetar meu dedo e medir a glicemia.

Picadinha feita, ela se virou para buscar a tarja e eu, em um súbito momento de imbecilidade, automaticamente LEVEI O DEDO À BOCA para conter o sangue.  Tipo a Bela Adormecida na roca, mas com um pouco menos de glamour e um pouco mais de burrice.

A ficha caiu e eu fiquei ali, sem graça, com o dedo na boca, sem saber como reagir, até que a enfermeira virou de volta e gritou, no meio de todo mundo:

– NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOO! ESSE SANGUE ERA MEU!!

ESSE.SANGUE.ERA.MEU.

JU-RO.

Aí eu pergunto: ela só estava empolgada com o clima de Halloween, essas coisas também acontecem com vcs, ou eu deveria ter saído correndo, tipo Forest Gump level?

#runPaularun

#premiadafeelings