Coração vagabundo

Por circunstâncias que não vêm ao caso aqui, fizemos alguns passeios com um grupo de irmãos, que mora em um abrigo perto de casa.

Maridón, conhecendo a esposa que tem, fez toda uma preparação psicológica, do tipo “aguenta firme aí, não podemos adotar todos” e eu tenho repetido esse mantra religiosamente, ao longo dos últimos dias, em uma vã tentativa de autoconvencimento, afinal trato é trato.

Pois bem. O problema é que não estava nos meus planos conhecer, no meio desse caminho, um dos meninos mais doces e, ao mesmo tempo, mais animados desse mundão sem porteiras.

Ele adora bichos, está sempre feliz, sorri com os olhos, corre, pula da escada, capota no chão e já levanta falando, como se nada tivesse acontecido.  No minuto seguinte está cuidando da Pi, não deixando que ela engatinhe no piso frio, brincando de esconde-esconde e dando a mãozinha, para ajudá-la a andar.

A Pi, por sua vez, engatinha rápido na direção dele, o abraça e dá risada. Os dois brincam juntos como se ali não existissem oito anos de diferença, coisa linda de se ver.

Numa dessas brincadeiras, a Pi saiu andando sozinha e atravessou a sala de uma vez, sem nenhum apoio.  Ele, todo orgulhoso, veio correndo me contar: “tia, tia, eu que ensinei a Pi a andar! Eu que ensinei!”.

Em outra ocasião, ele me perguntou, sério, qual dos irmãos era o meu preferido, já adiantando a resposta: “é a fulana, né?”. Vontade infinita de responder “não, querido, meu escolhido sempre foi você”, mas tive que disfarçar e soltar uma frase genérica, em respeito a todo o histórico e dinâmica familiar envolvidos.

Eu sei, eu sei.

Ninguém precisa repetir, eu entendo que ainda não é o momento, que não estamos habilitados no rol de adotantes, que a Lily chegará em poucas semanas e que ele não pode (nem quer) ser separado dos irmãos.

A cabeça está muito consciente, tudo faz sentido e me foi bem explicado, tim tim por tim tim.

Contudo, está cada vez mais difícil convencer meu coração vagabundo de que não, ele não pode se apaixonar agora. Não assim. Não por esse menino.

Complicado está sendo explicar a mim mesma, que a criança que meu coração escolheu não está disponível e que, desta vez, teremos que esperar a próxima rodada do jogo da vida.

Então, eu faço a única coisa que posso, por enquanto: enxugo as lágrimas, escrevo um post e guardo todo meu amor em uma caixinha, para quem sabe um dia poder contar essa história com um final diferente.

E segue o jogo.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes).

11 pensamentos sobre “Coração vagabundo

  1. Vc já tem um coração gigante, tá grávida… era o momento perfeito pro seu coração te pegar assim de jeito e vc não aceitar a racionalidade… força na peruca muié! (ass uma das leitoras quietas do seu blog)

  2. Acho lindo essa sua vontade de adotar um menino. Mas já que agora não é o momento ou esse menino não está disponível, nada impede de vc ajudar de alguma forma ele, sendo madrinha nem q seja de bunda. Se é q vc ja nao faz isso. Mas isso é que é força de vontade. Talvez ele nao esteja destinado a ser irmão de Pi e da bebe q está p nascer. Mas com certeza podem ser grandes amigos. Bjs !!!

    • Tomara!! :o)
      Ele já tem padrinhos, mas tentamos sair com os irmãos, quando os padrinhos não podem.
      Ainda é pouco, mas é melhor do que nada, né?
      Se tudo der certo, em 2015 colocaremos nosso projeto de adotar uma criança em prática. Até lá, vou me contentando com esses momentos 🙂
      Beijos!

  3. Oi Paula,
    achei linda sua história e claro, emocionante!
    Mas esse tipo de decisão não dá pra ser feita só com o coração.
    Apesar de adotar ser um ato de amor.
    Tome muito cuidado, pense muito bem, para não sofrer depois.
    Eu passei por um momento muito delicado com minha sobrinha, que sofria maus tratos com a mãe usuária de drogas.
    E por eu ama-la, e pensar somente com o coração na intenção de querer da-la uma vida melhor, mostrar novos horizontes, mostrar que a vida é bem melhor de se viver, e que tem muitas oportunidades…
    Acabei me entristecendo demais, pq msm na minha cabeça e no meu coração sendo td tão perfeito!!!
    Na realidade, eram só meus olhos que viam td isso lindo e maravilhoso.
    Já ela, preferiu voltar de onde veio, de onde acha que está a liberdade de uma vida mais fácil e sem compromisso, por não está acostumada com regras, e disciplina.
    Meu coração dói, de medo de pensar que a vida pode não ser tão generosa com ela, que já é uma mocinha de 12 anos.
    Mas é isso aí… A vida segue…
    Pelo menos tentei… Fiz minha parte…

    BjãooO

    • Oi, xará!
      Obrigada pelos conselhos e por dividir sua experiência comigo.
      Adotar uma criança é um sonho bem antigo, combinado com meu marido desde a época do namoro. Sei que não é um processo fácil, que requer muita paciência, acompanhamento e dedicação.
      Justamente por isso, não posso pensar em entrar em um processo desses um mês antes da Lily nascer. Não seria justo com nenhum dos dois filhos. Mas quem sabe em 2015, né?
      Espero que as coisas com a sua sobrinha se resolvam da melhor forma possível!
      Beijo grande!

    • Ah, Ceci!
      Vc sempre com seu coração gigante, querendo abraçar o mundo….
      Para poder sair com uma das crianças, vc precisa ser madrinha dela (o abrigo é católico e eles fazem batizado e tudo). Essa turminha já tem padrinhos (são sete irmãos), mas se vc quiser mesmo, posso indicar seu nome, para o próximo que chegar.
      A ideia é sair com eles em alguns finais de semana, feriados e festas (tipo Natal, dia das Crianças, Páscoa, etc). Alguns padrinhos levam os afilhados para viajar nas férias também, por ex, mas não é obrigatório, claro.
      Se decidir ser madrinha um dia, é só falar comigo. Certeza que a criançada vai adorar um certo gatão rabugento. Só não sei se a recíproca será verdadeira…. rssss
      Beijos

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