Sincericídio

Sempre fui daquelas que perdem o amigo, o marido, o parente, mas não perdem a piada.

Também costumo ser bem transparente, do tipo que não deixa as pessoas em dúvida se gostei ou não de alguma coisa.

Maridón me chama carinhosamente de Lugana, por causa desse jeitinho tão especial (o amor é lindo, eu sei).

O problema é que, na gravidez, essa característica se aflora a níveis alarmantes e vc se torna uma máquina de sincericídio ambulante.

Para variar, não sei qual é a explicação científica, mas é real.

Grávidas perdem o filtro.

Pior, perdem a paciência e a capacidade de serem gentis ao dizer a tal verdade doída (aí pode ser a progesterona se manifestando ou pura revolta pela milésima ida ao banheiro. Essas coisas deixam a pessoa amarga).

Explico: sua amiga está sendo super rigorosa, sem necessidade, com o namorado, porém ao invés de falar “calma, será que é para tanto?”, vc solta “mas que chata!”.  Assim, na lata, sem preparação psicológica, nem aviso.

E não para por aí.  A menos que a pessoa esteja disposta a ouvir a verdade, frases do tipo: “estou gorda com essa roupa?”, “vc acha que fiz mal?”, ou “fulaninho estava com o celular desligado no feriado, porque acabaram a bateria e a energia na casa dele” (ah, vá???) devem ser evitadas a todo custo.

O duro é que verdades nem sempre são bem recebidas, muitas vezes uma mentirinha reconfortante veste melhor o interlocutor.  Para quem já não é muito craque na arte de iludir os outros – leia-se EU, talento zero no quesito “grávida Branca de Neve” – a dificuldade é redobrada.

Quando percebo, já soltei a paulada sem mimimis e aí é tarde demais.

Por escrito ainda sou capaz de disfarçar, o bom senso prevalece e consigo me conter.  Escrevo e reescrevo o e-mail ou mensagem, tentando ser mais delicada (ainda bem que bufadas, reviradas de olhos e risadas irônicas não ficam registradas virtualmente).  Porém, ao vivo é quase impossível, os índices elevadíssimos de sincericídio nas respostas, beirando a falta de educação, acabam prevalecendo no impulso.

Então, se fui rude, indelicada, ou deixei de lado aquela balela simpática, para mandar na lata a verdade nua e crua, não foi por mal. Vai passar, eu voltarei ao normal.

Só não vai dar para virar uma Miss Simpatia da noite para o dia, porque, sejamos realistas, milagres não acontecem assim.

Se estiver MESMO precisando de mentirinhas brancas, melhor perguntar lá no Posto Ipiranga.

#hayqueendurecerperosinperderlaternura

Um pensamento sobre “Sincericídio

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